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Entrevista com Adolfo Pérez Esquivel

Precisamos repensar quem somos, o que queremos e aonde vamos

Fecha de publicación: 30 noviembre, 2010

Nos últimos anos, o discurso ambientalista vem ganhando força no debate sobre os direitos humanos. Um dos grandes nomes dessa discussão é o argentino Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do Nobel da Paz de 1980. Aqui entrevista concedida pelo Pérez Esquivel à Gazeta do Povo.

Após militar pelo fim das ditaduras na América Latina, o ativista se engajou na luta pela preservação da natureza. Em Curitiba, neste fim de semana, Esquivel conversou com a Gazeta do Povo. Para ele, é preciso que o homem restabeleça o equilíbrio com o meio
ambiente e que a humanidade pense em um novo contrato social. “Os
instrumentos atuais não servem. Precisamos repensar quem somos, o que
queremos e aonde vamos”, diz.

O argentino defende a ideia de que a paz não pode ser individualista e
personalista e que o modelo econômico atual coloca em risco a vida na
Terra. Hoje Esquivel, com 79 anos, dedica-se a auxiliar organizações latino-americanas que
defendem os direitos humanos e viaja o mundo divulgando essas
experiências. Ele preside ainda o Serviço de Paz e Justiça (Serpaj).

A entrevista é de Paola Carriel e está publicada no jornal Gazeta do Povo, 22-11-2010.

Hoje o conceito de paz é discutido a partir de um ponto de vista holístico,
com uma visão integradora entre homem e natureza. Por quê?

A paz tem relação com a mãe natureza. Antes de falar de meio ambiente, é
preciso falar de ambiente. Primeiro é preciso restabelecer o equilíbrio
entre o homem e a mãe natureza. Não somos todo, somos parte. Uma gota de água é todo o mar e todo o mar está nesta gota de água. Assim é o ser
humano. Somos parte. O que ocorre é que os interesses econômicos levaram à destruição do ambiente e a um dano profundo à Terra, o que põe em
risco a vida planetária. A paz não é uma ausência de conflito, mas uma
dinâmica permanente da vida, das relações humanas, da natureza. Creio
que, quando chegarmos ao equilíbrio, podemos encontrar a paz. Ninguém
pode dar aquilo que não tem. Se não temos paz dentro da gente, não
podemos compartilhá-la. Não pode haver paz individualista e
personalista.

O senhor diz que estamos gerando uma monocultura das mentes e que isso é perigoso. Por quê?

É perigoso porque impõe um pensamento único. Há a morte das identidades,
do sentimento de pertencimento e dos valores. Se isso ocorre, nosso
povo, identidade e espiritualidade desaparecem. Deixamos de ter uma
identidade e uma memória. Os povos que não têm memória desaparecem, são
dominados e escravizados. O monocultivo das mentes e da terra, essa
hegemonia cultural, está provocando danos profundos na humanidade.
Teremos de ter a capacidade de resistência política, espiritual,
cultural, econômica. E, para isso, é importante uma educação
libertadora, como Paulo Freire nos ensinou a usar a consciência crítica. Mas, dentro desta situação trágica,
teremos de descobrir signos de esperança. E há muitos.

Quais são esses signos de esperança?

Estive com o Movimento dos Sem-Terra e percebi que eles têm, por exemplo, a missão da soberania alimentar e
da autonomia do pequeno agricultor. São eles que garantirão a soberania
alimentar planetária e não as grandes corporações. Outro exemplo é o
movimento de mulheres. Em todo o mundo, a cada dia as mulheres têm um
papel mais importante. É uma capacidade que antes a opressão do machismo não permitia aparecer. E isso foi conquistado. Além disso, há os povos
originários, que são os grandes ecologistas. Eles não destroem, utilizam com sabedoria a biodiversidade. Por outro lado, temos enormes desafios. Precisamos de um novo contrato social em escala planetária, Os
instrumentos atuais não servem. Precisamos repensar quem somos, o que
queremos e aonde vamos. Como vamos restabelecer novamente o equilíbrio
destruído? Uma coisa é ver, outra enxergar. Hoje vemos, mas não
enxergamos. Precisamos apreciar a beleza da criação.

No que o mundo avançou desde que o senhor ganhou o prêmio?

Nada fica estático em uma sociedade, há uma dinâmica permanente de
transformação da vida. Uma evolução. Nunca somos iguais, nem no âmbito
pessoal. Muito mudou no mundo. Caiu o Muro de Berlim, se desintegrou a
União Soviética, os Estados Unidos passaram a ser hegemônicos, vieram as guerras do Afeganistão e do Iraque. Mas ainda há fome no mundo.
Milhares de crianças morrem de fome todos os dias. É um genocídio
silencioso, quando, por exemplo, se destrói gradativamente a mãe
natureza ou se incentiva a monocultura. A mãe natureza nunca teve
monocultura. Quem criou isso fomos nós, em um afã mercantilista.

Há setores da sociedade que criticam a emergência do autoritarismo na América Latina. Qual a sua opinião?

Os grupos de poder falam do autoritarismo dos outros, quando eles próprios o são. Autoritário é se impor como em uma ditadura. A autoridade tem
respaldo do povo. Antes na Bolívia havia pobreza e miséria absoluta. Os
indígenas eram completamente excluídos. Havia tubulação de gás passando
em frente de suas casas e eles não tinham gás. Quem é autoritário? A
Bolívia está livre do analfabetismo. Democracia significa direitos e
igualdades para todos e todas e não para alguns. Os monopólios são os
monocultivos da mente. Te dizem o que deve fazer e não há opções. Temos
de ter a consciência de ser homens e mulheres livres.

Como foi a sua trajetória após receber o Prêmio Nobel?

Eu já era um ativista antes do Prêmio Nobel. Ele veio como conseqüência de um trabalho realizado em toda a América Latina. Assim, quando me
outorgaram, não quis assumir como um título pessoal, mas em nome de
todas as pessoas que fazem ações como essas em todo o continente. Para
mim, o Nobel é um instrumento a serviço dos povos, não outra coisa. Nos
últimos anos, seguimos trabalhando com as organizações populares, povos
indígenas, camponeses, jovens. Sigo escrevendo e fazendo arte,
publicando livros sobre as experiências positivas na América Latina e
leciono na Universidade de Buenos Aires.

Fuente: Secretaría Grito Continental
Última modificación: 25 de febrero de 2011 a las 08:59
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