Ingresar

O Planeta vai continuar com febre

Fecha de publicación: 18 diciembre, 2010

A COP 16 terminou na madrugada do dia 11 dezembro em Cancún com pífias conclusões, tiradas mais ou menos a forceps. São conhecidas e por isso não cabe aqui referi-las.

Devido ao
clima geral de decepção, foram até mais do que se esperava mas menos do
que deveriam ser, dada a gravidade da crescente degradação do
sistema-Terra. Predominou o espírito de Copenhague de enfrentar o
problema do aquecimento global com medidas estruturadas ao redor da
economia. E aqui reside o grande equívoco, pois o sistema econômico que
gerou a crise não pode ser o mesmo que nos vai tirar da crise. Usando
uma expressão já usada pelo autor: tentando limar os dentes do lobo,
crê-se tirar-lhe a ferocidade, na ilusão de que esta reside nos dentes e não na natureza do próprio lobo. A lógica da economia dominante que
visa o crescimento e o aumento do PIB implica na dominação da natureza,
na desconsideração da equidade social (dai a crescente concentração de
riqueza e a célere apropriação de bens comuns) e da falta de
solidariedade para com as futuras gerações. E querem-nos fazer crer que
esta dinâmica nos vai tirar das muitas crises, sobretudo a do
aquecimento global. Mas cumpre enfatizar: chegamos a um ponto em que se
exige um completo repensamento e reorientação de nosso modo de estar no
mundo. Não basta apenas uma mudança de vontade, mas sobretudo se exige a transformação da imaginação. A imaginação é a capacidade de projetar
outros modos de ser, de agir, de produzir, de consumir, de nos
relacionarmo-nos uns com os outros e com a Terra. A Carta da Terra foi
ao coração problema e de sua possível solução ao afirmar:“Como nunca
antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança nas mentes e nos corações. Requer um novo
sentido de interdependência global e de responsabilidade universal.
Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida
sustentável aos níveis local, nacional, regional e global”.

Este
propósito no se fez presente em nenhuma das 16 COPs. Predomina a
convicção de que a crise da Terra é conjuntural e não estrutural e pode
ser enfrentada com o arsenal de meios que o sistema dispõe, com acordos
entre chefes de Estado e empresários quando toda a comunidade mundial
deveria ser envolvida. A referência de base não é a Terra como um todo,
mas os estados-nações cada qual com seus interesses particulares,
regidos pela lógica do individualismo e não pela da cooperação e da
interconexão de todos com todos, exigida pelo caráter global do
problema. Não se firmou ainda na consciência coletiva o fato de que o
Planeta é pequeno, possui recursos limitados, se encontra superpovoado,
contaminado, empobrecido e doente. Não se fala em dívida ecológica. Não
se toma a sério a crise ecológica generalizada que é mais que o
aquecimento global. Não são suficientes a adaptação e a mitigação sem
conferir centralidade à grave injustiça social mundial, aos massivos
fluxos migratórios que alcançaram já a cifra de 60 milhões de pessoas, a destruição de economias frágeis com o crescimento em muitos milhões de
pobres e famintos, a violação do direito à seguridade alimentar e à
saúde. Falta articular a justiça social com a justiça ecológica.

O que se impõe, na verdade, é um novo olhar sobre a Terra. Ela não pode
continuar a ser um baú sem fundo de recursos a serem explorados para
benefício exclusivamente humano, sem considerar os outros seres vivos
que também precisam da biosfera. A Terra é Mãe e Gaia, tese sustentada
sem qualquer sucesso pela delegação boliviana, e por isso sujeita de
direitos e merecedora de respeito e de veneração. A crise não reside na
geofísica da Terra, mas na nossa relação de agressão para com ela. Nós
nos tornamos numa força geofísica altamente destrutiva, inaugurando,
como já se fala, o antropoceno, uma nova era geológica marcada pela
intensiva intervenção descuidada e irresponsável do ser humano.

Se a humanidade não se acertar ao redor de alguns valores mínimos como a
sustentabilidade, o cuidado, a responsabilidade coletiva, a cooperação e a compaixão, poderemos nos acercar de um abismo, aberto lá na frente.

Leonardo Boff foi observador na COP-16 em Cancún.

Fuente: ADITAL
Última modificación: 11 de febrero de 2011 a las 08:40
Hay 0 comentarios
For security reasons you need to type the text displayed in the following image <img src_="/captcha/image/592a9cc5e34d0b1b35bd60d70ae7d3cede617497/" alt="captcha" class="captcha" /> <input type="hidden" name="captcha_0" value="592a9cc5e34d0b1b35bd60d70ae7d3cede617497" /> <input type="text" name="captcha_1" />